CAPMag
VIAGENS
Ó MIRANDELA,
DEIXA PERDER-ME EM TI


Deslizando sobre o rio Tua, o sol acaricia-me o rosto. Deixo-me adormecer, instalada confortavelmente na pequena embarcação. Inesperado, um grito de criança soa. Abro os olhos com dificuldade, o sol cega-me. Enfim vejo. Uma zona extensa de lazer e perto, muito perto, a cidade. Mistura de sossego e de dinamismo: Mirandela.

“Mirandela, Mirandela, Mira-a bem, ficarás nela; Quem Mirandela mirou, em Mirandela ficou.”
“A cidade das flores” ou “a Coimbra do Norte”, Mirandela, cidade que sugere cognomes, cidade que inspira poesia. Será consequência do peso histórico que continue fluente nas ruas da cidade? Será da frescura e doçura do rio Tua que atravessa a sua baixa?
Ergue-se sobre a cidade com um olhar paternal a câmara municipal, monumento repleno de história. Com efeito, a vila de Mirandela, tendo recebido carta floral de D. Afonso III em 1250, é deslocada em 1282 sobre o ponto mais alto do que era denominado cabeço São Miguel, no que é hoje o velho Mirandela, em volta do palácio dos Távoras, edifício reedificado no século XVII. Virando as costas à câmara, enfrento a enigma da cidade, poderosa e orgulhosa, impõe-me um salto no passado. Do século XVI, de estilo românico, a ponte velha, atravessando o rio Tua, segue constituindo uma incógnita quanto à data de construção. Outrora, após ter ultrapassado o rio, eram acolhidos os visitantes pela entrada nomeada porta de S. António. Dantes a vila possuía muralhas que a contornavam, disposição que implicava portas de entrada. Das três que de a vila de Mirandela usufruía apenas podemos hoje ver a dita porta de S. António.
Arruinada a muralha, Mirandela torna-se passagem obrigatória estando composta de estradas dirigindo-se em toda direcção e tendo acolhido a linha-férrea Tua-Mirandela. Passando o tempo e a ditadura, continuando a sua expansão, a vila de Mirandela vê vários servícios públicos instalarem-se no seu seio, o que traz para a vila fluxos importantes. No coração do distrito, Mirandela beneficiou da sua posição para se elevar até um nível superior economicamente em comparação à outros municípios, o que lhe permite o estatuto de cidade no 16 de Maio de 1984.
Além dum dinamismo certo, a cidade de Mirandela faz questão em salientar jardins, parques e outros lugares de lazer, vertente que existe em cada centro urbano mas que Mirandela glorifica. Por isso, iniciou o conceito da “cidade flor”, desbloqueando alguma parte financeira, criando assim um compromisso entre a civilização e a natureza. Compromisso que acaricia o olhar do visitante ou seja “Quem Mirandela mirou ; Em Mirandela ficou”. Estes esforços da câmara aparecem sublimados durante a festa anual, (que tem lugar no primeiro fim-de-semana de Agosto), relembro com efeito o famoso fogo de artifício da cidade, conjugação de modernismo com alta tecnologia e natureza usando o rio Tua e os jardins como espaços de espectáculo. “A cidade das flores” ou «A Coimbra do Norte», vários cognomes para uma cidade às múltiplas vertentes.
Vagarosamente continuo o meu passeio pela ponte velha, agora o santuário da Nossa Senhora do Amparo aparece nitidamente: um oásis de paz no movimento. Os sinos tocam desde a igreja mátriz, da outra margem do rio, perto da câmara; a noite está caindo, a cidade ilumina-se, o rumor dos passeantes, encontra eco nas águas do rio, no xisto do velho Mirandela Encaminho-me até a minha barca, passo pela zona verde, a dita zona extensa de lazer, os repuxos de agua refrescam o ar.
Olho para o lado e vejo Mirandela resplandecer, a noite fica-lhe bem, sendo uma cidade onde se vive na rua , pelos passeios e jardins. O guia que lhe aconselho é incontestavelmente o próprio instinto. Usufruem de Mirandela olhando para ela, respirando o ar fresco dos jardins, perdendo-se pelas subidas e descidas do centro histórico, constatando a dupla figura da cidade.

Liliana Esteves
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